Maria Rosa Colaço ( 19/9/1935 - 13/10/2004) poetisa e prosadora, nasceu em
Torrão (Alcácer do Sal), uma terra pequenina e branca atravessada por um rio
que se pode atravessar saltando entre pedras e rãs – o rio Xarrama.
Teve uma infância feliz, numa casa grande, com muito espaço à volta onde cresciam flores, árvores, abelhas e brincava com um cão enorme: o Tomba-Lombos.
Teve uma infância feliz, numa casa grande, com muito espaço à volta onde cresciam flores, árvores, abelhas e brincava com um cão enorme: o Tomba-Lombos.
Aprendeu a ler aos três anos, aos quatro já
escrevia, aos nove publicou o seu primeiro conto num suplemento infantil:
Joaninha.
Decidiu não deixar de ser criança, ao menos por
dentro, e um dia começou a escrever histórias em que tudo o que é possível mas
também o impossível pode acontecer. Conhecem-na mais como escritora de
literatura para crianças, o que não é verdade, por várias razões: porque a
literatura deve ser uma coisa para toda a gente, sem calendário, sem datas, sem
arames a dizer: isto é para ti que tens oito anos, isto para o senhor que já
tem sessenta. Escrever ou ler é um acto de alegria. Só. E se existem pessoas
jovens há mais tempo que já não têm paciência para sonhos ou para histórias
inventadas do real, o problema é delas que não souberam descobrir que a vida
tem vários rostos e a alegria várias palavras para ser pintada.
A Maria Rosa Colaço escreve também e sobretudo para
as chamadas “pessoas grandes”. É jornalista. Neste momento trabalha na Capital
e Máxima. Faz televisão. Viaja muito, gosta de ciganos, filmes policiais,
histórias de ficção científica, exposições de pintura, música clássica e de dar
grandes passeios pelo pinhal.
É casada e tem três filhos: Vasco Manuel, Maria
Manuel, Sofia Manuel, e um neto: o Pedro.
Alguns dos seus livros: Estas crianças aqui, A
Criança e a Vida, Não só quem nos odeia, Não quero ser grande, Espanta-pardais,
Sofia e o Caracol, Gaivota, Maria Tonta como eu, Os amigos voltam sempre, Aventura com Asas, Viagens com homem dentro, O Coração e o Livro, etc..
Senhores professores, pais meninos e meninas,
vamos então conhecer melhor Maria Rosa Colaço, escritora do Torrão, no nosso
Alentejo.
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Elaborado a partir de um texto de Eduardo
Olímpio – “Diário do Alentejo” – 27/10/1995
E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?
Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.
Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?
Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.
E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.
Uma criança sentou-se na tarde agreste e pintou o
sol. A sala onde a criança estava ficou iluminada e fresca. Depois, a criança
misturou as tintas, a água, o sonho e, num grande cartão, lentamente, foi
erguendo prados, lezírias, florestas, aves, flores inesperadas. Então, chamou a
irmã que a um canto assistia à criação deste mundo original e disse: «Vamos
fazer uma viagem!»
Misteriosamente, trocavam palavras de silêncio,
encontravam-se com anões, gigantes e animais estranhíssimos, metade homens,
metade bichos que, ora os assustavam, ora os desvaneciam.
A certa altura a menina disse:
E o menino respondeu:
— Não podemos. É muito alta. Não cabe nestes
caminhos: ia pisar tudo e estes bichinhos ficavam tristes. Muito tristes.
— Vamos ao fundo deste mar! — disse a menina.
— Cá em cima é mais fresco. Lá em baixo há peixes
grandes e escuros. Mordem, os peixes.
— E a mamã? — insistia a menina, já perturbada
pela lonjura a que devia estar de casa, perturbada pelo bibe molhado, aflita
com as algas verdes que se lhe colavam ao rosto.
— Levamos-lhe uma flor do mar. Ela fica contente
se tem uma flor.
— Vamos já embora? — tornava a menina.
— Não. Só quando formos muiiiiiiito velhos.
A menina calou-se. Estava séria. Estendeu-se ao
lado do irmão na areia branca daquela praia tranquila e distante.
Sentia-se muito cansada e adormeceu.
Então, amorosamente, o irmão tapou-a de folhas e
flores imaginárias e ficou ali a velar-‑lhe o sorriso.
Quando reparou na mãe, estremeceu ligeiramente.
Tinha os olhos brilhantes e, dos cabelos, escorria-lhe um perfume a sol e azul.
Sobre a tela, encostada a um armário, a noite
começava a diluir em sombra toda a floresta, e o dorso dos animais marinhos
erguia-se também numa respiração tranquila.
Maria Rosa Colaço - Não Quero Ser Grande - Lisboa,
Ed. Escritor, 1996
Na idade própria
Na idade própria
foste prá escolinha
aprender com
letra muito redondinha.
Fizeste tricot,
parecias rainha,
não sujaste os
bibes, sempre arrumadinha.
Saíste da
escola, sempre caladinha,
veio um
namorado, mas tão seriazinha,
puseste o véu
branco, tão bem casadinha!
De manhã à
noite, tão asseadinha,
lavas bem os
tachos, esfregas a cozinha,
pões as flores
de plástico na tua salinha.
Como Deus
mandou, cresce a barriguinha,
passam nove
meses nasce-te a filhinha.
Fazes mais
tricot, lavas mais roupinha.
Passam-se os
anos, já és avozinha,
fazes mais
tricot p´rá tua netinha.
Teu rosto,
menina, não me sai da ideia,
vejo as tuas
mãos a tecer a teia
em que, sem
saberes, te vão enredar,
as aranhas
anhas, do teu tricotar.
Se quiseres ser
gente já não é capaz,
a morte na
frente, o tédio p´ra trás.
Mas tens de ser
gente, tens de ser capaz,
dois pontos à
frente, nenhum para trás!
Maria Rosa
Colaço



