domingo, 23 de fevereiro de 2014

POESIA SOCIAL DO ALENTEJO (3)

Toada de Portalegre
"Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
( Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem fôr,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante de uma janela

Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!

Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e Amarelos,
Salpicados de Oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha"
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego...

Ora agora,
?Que havia o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento suão
De se lembrar de fazer?

Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
?Que havia o vento suão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
O documento maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer?

Lá num craveiro, que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
Á qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...

Como é que o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere ... e consola
Com o próprio mal que faz?

Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre; cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida

- Não vivida!, sim morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão,
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do tal suão
Já varias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...

Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e céus,
E o vento a trás à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tôsca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morar nela!

Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acàciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu; dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus,
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...
Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar nos animais,
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais,
Tais e tantas!
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for!

O amor, a amizade, e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara,
Bens deste mundo! que o mundo
Me levara,
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me, Deixando só, nulo, vácuos, A mim que tanto esperava
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver...

E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casa que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.

Vento suão! obrigado...
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado
Sem eu sonhar, me chegara!

E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,

Ou se um filho me nascera.
José Régio

sábado, 22 de fevereiro de 2014

NISA: Criado o grupo NisaPets - Activismo Animal

O QUE É O NISAPETS?
O NISAPETS é um grupo constituído por munícipes e simpatizantes do Concelho de Nisa que pretendem ter uma ação cívica ativa. Somos um grupo cívico informal que atua com um estatuto voluntário.
PORQUE CONSTITUÍMOS O GRUPO NISAPETS?
Na sequência de vários casos de maus tratos a animais identificados no nosso Concelho, sentimos a necessidade imperativa de abandonar uma postura de resignação e adotar uma postura de proatividade no despertar de consciências desta pequena comunidade para a importância do respeito pela vida animal e pelo ecossistema.
QUAIS OS OBJETIVOS A QUE SE PROPÕE O NISAPETS?
O NISAPETS pretende sensibilizar a comunidade, através da disponibilização de informação, para a importância do respeito e de uma coabitação pacícifa e saudável com os animais de que são detentores e para com os animais errantes. Nesta fase, incluiremos apenas cães e gatos.
COMO PRETENDE O NISAPETS ATINGIR OS SEUS OBJETIVOS?
Está provado que a informação à comunidade e o controlo da população de animais errantes, são os fatores chave na promoção de uma coexistência pacífica entre ambos. Pois é isso que o NISAPETS se propõe, nomeadamente:
Implementação do programa CED, que é um método humano e eficaz de controlo de colónias de gatos e de redução da população felina silvestre. O processo envolve a captura dos gatos de uma colónia, a sua esterilização, um pequeno corte na orelha esquerda para fins de identificação, desparasitação e, por fim, a devolução do animal de volta ao seu território de origem. Um prestador de cuidados fornece comida e abrigo aos gatos devolvidos, monitoriza a colónia à procura de elementos novos e faz a mediação dos conflitos que possam surgir entre os gatos e a comunidade envolvente;
Recolha de cães abandonados, sua esterilização, colocação de microchip e posterior seguimento para adoção responsável;
Campanhas de sensibilização nas escolas, de forma a captar e envolver toda a comunidade estudantil, no apoio ao projeto NISAPETS;
Organização de eventos destinados a toda a população concelhia, com atividades que promovam o bem-estar animal;
Pedidos de apoio na disponibilização de meios à Autarquia de Nisa;
Pedidos de apoio a clínicas médico-veterinárias existentes no Concelho, no sentido de apoiarem o projeto NISAPETS através de serviços;
Participação do NISAPETS em festas e feiras do Concelho de Nisa, como forma de divulgar o seu trabalho e de sensibilizar a população através de folhetos informativos que esclarecerão para a importância do trabalho que desenvolvemos.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Reabilitação Urbana é prioritária para o Município de Nisa


NOTA DE IMPRENSA DA CÂMARA MUNICIPAL DE NISA
" A Câmara Municipal de Nisa aprovou a delimitação das Áreas de Reabilitação Urbana do “Mercado Municipal de Nisa e Áreas Envolventes” e do “Centro Histórico De Nisa”, assumindo o seu papel na promoção das medidas necessárias à reabilitação de áreas urbanas de Nisa.
 Tendo considerado de primordial importância a requalificação e reabilitação urbana de Nisa, o actual Executivo Municipal, após a sua tomada de posse, designou como prioritária a aprovação das Áreas de Reabilitação Urbana de Nisa.
Esta urgente ação resultou de uma ineficiente condução de processos no que se refere à candidatura da operação “Requalificação e Reabilitação Urbana de Nisa (1ª fase)” ao Eixo 3 – Coesão Local e Urbana, do INALENTEJO – Programa Operacional Regional do Alentejo 2007/2013, o que resultou na não aceitação da candidatura por parte da entidade gestora do programa, com graves prejuízos para a população.
Aquele processo foi recusado em duas candidaturas consecutivas - 2012 e 2013 -, fundamentado pelos avaliadores do INALENTEJO pela omissão de diversos elementos fundamentais, nomeadamente a inexistência de enquadramento da operação numa Área de Reabilitação Urbana (ARU).

Perante tal situação foram, de imediato, desencadeados todos os mecanismos necessários à sustentação do processo em causa, resultando na aprovação pelos órgãos competentes e publicação em Diário da República, da delimitação das Áreas de Reabilitação Urbana denominadas “Mercado Municipal de Nisa e Áreas Envolventes” e “Centro Histórico De Nisa” bem como os Programas Estratégicos das respetivas Operações de Reabilitação Urbana, fator essencial para um posterior financiamento por parte das entidades competentes, situação descurada anteriormente."

domingo, 2 de fevereiro de 2014

POESIA SOCIAL DO ALENTEJO (3)

O FERREIRO
Esta noite em toda a noite
Pus a forja a trabalhar
Fartei-me com dar à unha
Prá empreitada acabar

I
Estou muito satisfeito
Com a minha invenção
Fiz a máquina que produz pão
E a fábrica de fazer leite
Fiz manter o respeito
Porque vergonha já há pouca
Já se pode andar à foita
Porque ninguém tem a culpa
Eu fiz tudo "à la minuta"
Esta noite em toda a noite
II
Para haver fado em todo o lado
Fiz trezentas mil guitarras
Inventei as novas armas
P´ra vencer a nova guerra
Aqui é que ninguém erra
Todo o mundo vai pasmar
Fiz submarinos p´ra voar
Fiz o avião que não pousa
Mas para haver tanta coisa
Pus a forja a trabalhar.
III
Destruí a máquina tractor
Para bem do nosso povo
E fiz material novo
Para se viver com amor
Fiz a máquina sem calor
Que faz da água espuma
Não tenho dúvida nenhuma
Em fabricar a máquina a vento
Arranjei pão p´ra toda a gente
Fartei-me com dar à unha
IV
Acabei com o ferramental
E fiz a máquina universal
Que a todos era precisa
Visto que o trabalho é mau
E para que servia tanto pau
Para o mundo se alimentar
Eu pus tudo a descansar
Ainda antes do nascer do sol
Mas fartei-me com dar ao fole
Prá empreitada acabar.
Benvindo Graça