segunda-feira, 19 de maio de 2014

Chamava-se Catarina, o Alentejo a viu nascer... (II)

A morte de Catarina Eufémia - Desenho de José Dias Coelho
LAIVOS DE AQUENTEJO
Luísa Vilão Palma
O panal era branco em rendas de suor, como a cal que a Ti Liberta fervia no azado, ao fundo da rua do monte. O ervaçal no empedrado. O monte era o rumo dos dias nas tardes calmosas. Deixava a tarimba ao luzir do buraco, enquanto o cão ansiava a bôla de farelo, impaciente. A cauda do animal agitava-se na cadência dos passos da mulher.
O patrão podia aparecer a qualquer hora. O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de coração apaixonado na metáfora do escritor.
— Bom dia, Ti Liberta, já soube da desgraça?
-Oh! home, o que dizes tu?
O olhar da mulher fraquejou, começou a toldar-se, fundindo-se na sombra da azinheira solitária que o artista empresta à tela camponesa as tuas mãos em gesto ritmado no movimento da foice as paveias soam a queixume de quem implora o pão.
 ...Hás de fazer do teu lenço vermelho a única bandeira viva sobre a terra...
 Sim, a desgraça, ti Liberta. Ela caiu. Ali mesmo.
 Entre a terra e o céu. Lá. Pelo Maio calmoso das aceifas escureceu o sol tardiamente, beijando-lhe a face pela última vez. Lá. Onde a imensidão. Vagueiam gestos ousados em lágrimas de sangue da mulher.
O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de ódio no retrato da tirania.
Ti Liberta, abra os olhos.
Já faz tempo que a ceifeira, na voz de todas as ceifeiras, deixou rolar a foice entre o trigal, desesperada. Foi por mor do acrescento de uns tostões à jorna.
Ficou tamanho eco no infinito da gente que lutou até à exaustão.
A tua foice, Catarina.
Alentejo, vestimos os teus panos. Tu matas-nos a sede.
CANTAR ALENTEJANO
Vicente Campinas*
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
* Este poema foi musicado por José Afonso, no álbum «Cantigas de Maio», editado no Natal de 1971

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Nisa Viva celebrou os 40 anos do 25 de Abril com colóquio




A Nisa Viva – Associação dos Naturais e Amigos do Município de Nisa promoveu no passado sábado, no salão da Sociedade Artística Nisense, um colóquio sob o tema “O 25 de Abril e a Revolução”
Perante uma assistência numerosa e interessada, abriu a sessão o presidente da Sociedade, José Ferreira, que agradeceu a presença dos participantes e enaltecer a importância desta iniciativa.
António Montalvo, presidente da Nisa Viva, apresentou os oradores, o coronel José Maria Belo e o major general Norberto Bernardes, relatando alguns episódios em que participou enquanto estudante, nomeadamente, as manifestações contra o envio de tropas para as colónias.
José Maria Belo leu um texto onde, em termos gerais, traçou o “antes e depois do 25 de Abril, uma “data histórica provocada por um golpe militar e a que adesão popular conferiu uma expressão revolucionária”.
Lembrou a falta das liberdades fundamentais e de direitos, principalmente por parte das mulheres e disse que o 25 de Abril tem que ser lembrado como um dia em que muitos militares corajosos se juntaram para derrubar um regime ditatorial.
Norberto Bernardes teve uma intervenção mais longa, explicando as origens do “Movimento dos Capitães” que fizeram o 25 de Abril.
Contou várias histórias do tempo da guerra colonial e do envolvimento dos operacionais que estavam na Guiné, falou das diversas tentativas para encontrar uma solução política para o problema colonial, diligências que nunca tiveram a devida a aceitação por parte do governo central.
A saída de uma lei que discriminava os oficiais milicianos face aos oficiais do quadro, acabou por se tornar no detonador e pretexto para juntar os militares que chegaram à conclusão de que só derrubando o regime se poderia resolver esse e outros problemas, principalmente o de acabar com a guerra colonial.
Cumprido esse desígnio, disse, os militares entregaram o poder aos políticos e regressaram aos quartéis.
Da parte da assistência houve algumas intervenções, todas elas reconhecendo o papel decisivo dos “Capitães de Abril” e lembrando as dificuldades do tempo presente, com a troika e a austeridade.
No final ficou uma nota de esperança em tempos melhores e pela recondução do país ao espírito de Abril, consubstanciado nos célebres três Dês: Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.
Mário Mendes