quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Cante Alentejano elevado a Património Imaterial da Humanidade

Decisão tomada hoje na sede da UNESCO, em Paris
O Cante Alentejano conquistou o título de Património Cultural Imaterial da Humanidade, após a decisão tomada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), hoje, dia 27 de Novembro.
Esta manifestação cultural do povo alentejano viu assim reconhecido o seu valor universal após um longo processo que, liderado pela Entidade Regional de Turismo e a Câmara Municipal de Serpa – com a colaboração de outras entidades públicas e privadas do território – teve início em 2011, com a preparação dos trabalhos técnicos e científicos que sustentaram a candidatura.

Valorizar e salvaguardar um bem único da Região – um dos símbolos maiores da identidade, tradição, força e caráter do povo que o expressa e preserva – foram as premissas base do projeto de âmbito regional que valeu ao Cante a elevação, pela UNESCO, à categoria de Património da Humanidade.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Museu da Presidência da República apresenta Exposição de Presépios em Castelo de Vide

Exposição “O Presépio - Colecção de Maria Cavaco Silva”
Igreja de S. João Batista – Castelo de Vide
29 de novembro de 2014 a 11 de janeiro de 2015
Segunda a Domingo - 10h00-12h30/14h00-17h00
O Museu da Presidência da República e a Câmara Municipal de Castelo de Vide inauguram a exposição “O Presépio – Colecção de Maria Cavaco Silva”, no dia 29 de novembro, às 18h30, com a presença da Dra. Maria Cavaco Silva. Esta mostra, dá a conhecer uma profusa e curiosa variedade de representações iconográficas da natividade, contribuindo, com as suas receitas, para uma instituição de solidariedade social da região – a Conferência de S. Vicente de Paulo de Castelo de Vide.
A coleção de Maria Cavaco Silva reúne peças de diversas proveniências, desde países longínquos, como Chile e Tailândia, até aos centros tradicionais de produção presepista portuguesa, como Barcelos e Estremoz. Traduz uma recolha informada e afetiva efetuada ao longo dos anos, resultante do seu interesse pessoal, das suas viagens e das suas funções de representação.
Para além de peças de artesanato, a coleção integra peças de grande valor simbólico, produzidas por instituições de solidariedade social. Cerâmica, madeira, lata, barro, azulejo, cortiça são algumas das matérias-primas que dão corpo aos 200 presépios apresentados nesta exposição, selecionados a partir de um vasto espólio que reúne atualmente quase 500 peças.
Esta iniciativa conjunta do Museu da Presidência da República e da Câmara Municipal de Castelo de Vide conta, ainda, com a colaboração da Diocese de Portalegre e com o apoio mecenático da Caixa de Crédito Agrícola do Norte Alentejano e da Companhia de Seguros Fidelidade.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Imagens antigas do Alentejo (2): Gáfete (Crato)


POETAS DO ALENTEJO: Francisco Bugalho

 Francisco Bugalho nasceu em 1905 e morreu em 1949, no mesmo ano em que Carlos Queiroz, poeta que no mês passado aqui tivemos em imagens e palavras e com quem Bugalho partilha “a mesma discrição verbal, o mesmo gosto da elegância e da doçura”, nas palavras de Adolfo Casais-Monteiro.
Mas se os versos de Queiroz são Lisboa, os de Bugalho são o Alentejo. O Alentejo das figueira verdes e dos “choupos curvados”, sim, mas também do “bom silêncio dormente” ou da “sesta dormida/ aos poucos”.
O seu “abastado bucolismo”, como se lhe referiu Jorge de Sena, convive com as insatisfações de um ser que chegou a dilacerar-se por que o homem que vive, e bem, “que ama o conforto”, é o mesmo poeta que sofre: “Quase não sinto calor / Do meu corpo; em redor / Nem um só eco de Vida”.
Na sua poesia passam as coisas da natureza, o que se move e o que está parado, insectos, algas, noites de solidão, amor, especiarias, “um cavalo branco”, ovelhas e carros lentos. Também “ondas revoltas do mar / com cadáveres de naufrágios a boiar / de bruços, olhos mergulhados / e perdidos / na busca dos abismos desejados / e nunca conseguidos”. E “o meu amigo dia”. E “A Esperança de Dias Novos”.
Este é então um poeta, que resumiu José Régio, de “rara subtileza dos sentidos para as coisas da paisagem, para a passagem, na paisagem, dos animais e dos homens”. Ao que se sabe, está para breve a edição da obra completa de Francisco Bugalho. Amando a vida simples como ele a amava, sincero e humano, desempoeirado e prático, Francisco Bugalho, em cada poesia que compunha, depositava um pouco desse sal de irrealidade que é o tempero de toda a verdadeira sensibilidade do poeta.
João Gaspar Simões – 2/3/49
“Na poesia do segundo quartel do nosso século, a voz de Francisco Bugalho foi, sem dúvida, das mais pessoais, das mais discretas e das mais marcadas pelo selo de uma profunda autenticidade.”
- David Mourão-Ferreira – 1969
in "Viva Voz" - nº 146 - Dez. 1996
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ALGUNS POEMAS DE FRANCISCO BUGALHO

Montado Velho
Meu triste montado velho
Que paz tem quem te procura
E, em ti, vem achar o espelho
De uma vida sem doçura,
Mas livre de enganos vãos!…

Troncos rugosos, mas sãos,
Ásperos, sim, mas generosos,
Todos, na desgraça, irmãos,
Dos maus Invernos ventosos

Montado, além, mais pra além,
Há céus azuis e há searas.
E brandas águas que têm
O brilho de pedras raras,
E não há só solidão!…

Mas essa tua canção
- solução d’alma que anseia –
Também a meu coração,
Furtivamente se enleia.
E aqui me fico contigo.

Sem ternura, nem doçura;
Mas longe do mundo vão,
- Meu velho montado amigo!…
E dos verões, sem pinga d’água.

Montado, que estranha mágua
Te confrange e te redime!
A tua visão afago-a.
És bom cenário pra um crime…
E pra milagres também.
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O Comboio Passa
O comboio passa...
Todas as manhãs acorda a paisagem,
Faz fugir o gado.
E na casa branca, junto da passagem,
Faz erguer a moça, de olhar estremunhado.

Tem geada o campo,
Num manto brilhante.
As vacas reparam, com olhos de gente.
E uns senhores, lá dentro, com ar indiferente,
Pensam noutras vidas, num mundo distante...

Vêm de longes terras, que a moça, coitada,
Nem sonha que existem, estendendo a bandeira.
E a máquina bruta, estridente, apressada,
Engolfa-se, aos gritos, por entre a barreira,
Onde uma calhandra, de há muito, faz ninho.

Ai de quem encontre, naquele caminho!...
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Tosquia
Rente, rente, rente
A tesoura corta.
E, na tarde quente,
Junho está à porta.

Vem do campo, em volta,
Mágico fulgor
De aroma, que solta
O feno, inda em flor.

Aperna-se o gado,
P'ra tirar-lhe a lã.
Ficou encerrado
Desde esta manhã.

Rente, rente, rente
Que a tesoura corta,
E, na tarde quente,
Junho está à porta.

Um halo de neve,
Espuma ou algodão,
Envolve de leve
As reses no chão.

Na luz forte, em roda,
Zumbem as abelhas.
E há balidos soltos
E tristes de ovelhas.

E ao soltar aquelas,
Livres, já, dos velos,
Parecem gazelas,
Em saltos singelos.

Rente, rente, rente
A tesoura corta,
E, na tarde quente,

Junho está à porta.

domingo, 16 de novembro de 2014

CULTURA: Livro de António Ventura premiado pela Academia Portuguesa de História

A Academia Portuguesa da História atribuiu o Prémio de História Moderna e Contemporânea, instituído pala Fundação Calouste Gulbenkian, ao livro do Professor António Ventura “Uma História da Maçonaria em Portugal 1727-1986”, publicado pelo Círculo de Leitores.
A entrega do prémio terá lugar no próximo dia 3 de Dezembro, durante a sessão de encerramento do Ano Académico, pelas 15 horas, no Palácio dos Lilases, Alameda das Linhas de Torres nº 198-200. A entrada é livre.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NISA: Morreu o Engº Polido Mourato

«Um homem grande com um coração do tamanho do homem», assim descreve João Manuel Lopes Polido Mourato um dos seus muitos amigos, o Pe.Américo.
E quem conhecia o Engº. Mourato sabe que ele era assim, um homem muito grande e muito bom.
Nos últimos anos a diabetes foi-lhe destruindo a vida, mas permanentemente acompanhado, tratado e acarinhado pela esposa, a professora enfermeira Lurdes Fonseca Agostinho.
João Manuel Mourato faleceu na quinta-feira, dia 6, em Portalegre, aos 70 anos, e o corpo seguiu para a sua terra natal, Nisa, onde esteve em câmara ardente e o enterro se realizou na sexta com acompanhamento de grande número de amigos que lhe quiseram prestar uma última homenagem.
Polido Mourato, que ficou órfão de pai em criança, foi forcado, fez o curso da Escola Agrícola, especializou-se em engenharia florestal, trabalhou em Montalegre e em Viseu e veio depois para Portalegre, tendo entre outras missões a gestão do Fundo de Fomento Florestal e ascendendo mais tarde a director dos Serviços Florestais.
Entre os muitos alegretenses (e não só) que trabalhavam no perímetro Florestal quando o Estado fazia a gestão do seu/nosso património, só contava com amigos, porque os trabalhadores gostavam mesmo dele.
Foi colaborador da FAO e do Banco Mundial, e já depois de reformado esteve ligado ao ensino profissional nas Escolas de Alter, Nisa e de Montargil, e à gestão de projectos agro-florestais, mas a doença obrigou-o a parar.
Durante 15 anos pertenceu ao Escuteiros e durante 10 anos foi Chefe do Agrupamento
142 do Corpo Nacional de Escutas (Portalegre) onde muito contribuiu para a formação de muitas crianças e jovens.
À esposa, aos seus três filhos e a toda a família, AA apresenta sentidas condolências de um bom homem e de um bom amigo.•

“Alto Alentejo” – 12/11/2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

NISA: Exposição de pintura de Ana Raquel Paixão

Durante o mês de novembro está patente na Biblioteca Municipal de Nisa uma exposição de Pintura de Ana Raquel Paixão.
Ana Raquel Paixão nasceu no concelho do Crato em 1986. É licenciada em Análises Clínicas e Saúde Pública pelo Instituto  Politécnico de Castelo Branco e frequenta o Mestrado de Bioquímica na Universidade de Évora. No ano de 2007 dedicou-se às artes decorativas sob a orientação da professora Helena Gargana no seu atelier sediado no Crato. Continuou a aprendizagem de pintura a óleo com a artista portalegrense Cidália Candeias, em 2008 por influência da mãe. Por motivos profissionais passou a residir em Santarém onde continuou os trabalhos artísticos. Nesta cidade trabalhou com a artista plástica portuguesa Maria João Roque, premiada internacionalmente. No ano de 2012 fez a sua primeira exposição de presépios no Posto de Turismo de Flor-da-Rosa sediado no Mosteiro de Santa Maria da Flor-da-Rosa. Atualmente dedica-se a todo o tipo de pintura e artes decorativas, em especial pintura a óleo e presépios. É fundadora do blog Pinceladas de Cor Blog onde expõem os seus trabalhos online. E é membro do Grupo Gestos d’arte fundado pela pintora Cidália Candeias.

domingo, 2 de novembro de 2014

O Alentejo no mensário das Casas do Povo


OPINIÃO: Barros de Nisa

O Alto Alentejo é um retalho de cor viva deste tapete multicolor de Portugal.
Nesta interessante faixa que se desdobra ao sol com as suas casas muito brancas e de grandes chaminés, só quem sofra de anestesia estética não encontra motivos de encanto para os olhos mais ávidos de notas coloridas.
O povo deste torrão alentejano além de trabalhar e com “apego à terra” peculiar em todo o alentejano, é de boa índole e não sei se alguma influência possa ter nele o predomínio da cor branca, reflectida por toda a parte, visto que o branco – como diz Mantegazza quando estuda a alma desta cor – não excita os sentidos, não exalta como o vermelho, não nos repousa como o verde, nem nos eleva como o azul...
Neste retalho de Portugal que tem lá ao longe como sentinela vigilante a fortaleza de Marvão, tiveram os Templários, em tempos que já vão longe, um papel importante, principalmente acentuado no distrito de Portalegre.
Não se limitou a acção dos Templários apenas á conquista e defesa dos pontos mais investidos pelos mouros: dela vieram também bastantes benefícios para a lavoura local e pequenas indústrias derivadas, que embora confusas a princípio e sem valor próprio, se nos apresentam hoje em dia com algo de aproveitar.
Assim, a cultura do linho que nesta região foi extensa, originou a indústria de tecelagem em alguns pontos do distrito de Portalegre, dando em Nisa uma especialização – os alinhavados – lavor característico, inconfundível.
Aponto aqui uma outra pequena indústria alentejana que é no entanto uma das mais interessantes e com maior sabor regionalista – a olaria.
A indústria dos oleiros, além de ser uma das mais antigas do Alto Alentejo, é aquela onde a gente do povo manifesta a sua sensibilidade artística, imprimindo aos barros uma originalidade que é de apreciar.
Quem não conhece os barros de Flor da Rosa, Amieira, Estremoz e Nisa? Quantos pintores de arte não se têm prendido com a nota colorida e tão alentejana que dão os barros quando espalhados pelo chão nos mercados e feiras, expostos ao sol do Alentejo?
Pelo lado artístico – entre os oleiros do Alto Alentejo – são os de Nisa os que mais cativam, pela graça com que trabalham o barro, dando-lhe não só uma linha de modelação muito sua e elegante, mas enriquecendo ainda essa modelação com incrustações de pequeninas pedras brancas, formando diversos volumes e flores, que fazem das cantarinhas, alegres e decorativas peças para o lar mais exigente.
Na ornamentação destas cantarinhas, única no género, observa-se sobretudo uma facilidade enorme de trabalho e qualidades belíssimas de assimilação desse género de trabalho, sabendo-se que são geralmente as crianças e mulheres do povo, sem conhecimento algum do desenho, que fazem essas incrustações ornamentais no barro. É curioso ver a rapidez com que estes artistas ignorados do povo riscam no barro ainda mole, as graciosas curvas e ingénuas flores que depois geralmente as raparigas contornam com pedrinhas brancas.
No entanto, esses desenhos, devemos confessá-lo, não têm concepção alguma regional e nem o encanto da ingenuidade possuem, visto que são desenhos tirados aqui e além, alterados cada vez mais em cada reprodução feita. Em todo o trabalho de decoração a base é sempre a mesma – a ideia ornamental. Neste caso da nossa olaria alentejana e, mais particularmente ainda, da olaria nisense, os melhores elementos decorativos, a meu ver, devem procurar-se na própria Natureza.
Sob este ponto de vista não faltam no Alto Alentejo valores decorativos a extrair da própria flora, por si mesma abundante de motivos ornamentais – a espiga do trigo, a folha do carvalho, o ouriço do castanheiro, a bolota, etc – elementos esses susceptíveis de darem lindas estilizações do mais rico efeito de composição. É interessante ver como a silhueta da cantarinha tem a sua semelhança com a linha de contorno da rapariga da região, vestindo as saias rodadas.
Li já impressão idêntica com referência à cantarinha de Coimbra, muito semelhante, também, na linha de contorno, com a silhueta estilizada da tricana.
Decerto, influência de uma imagem que está gravada nos olhos do oleiro, cujas mãos, modelando o barro, reproduzem nele, em estilização, uma figura que lhe baila nos sentidos...
Dinis Fragoso in “Revista Alentejana” nº 242 – Junho de 1957