sábado, 21 de janeiro de 2017

Antologia da Poesia Alentejana (1)

Aos trabalhadores da minha aldeia (1923)
Bendita, Senhor, bendita,
Bendita a terra que eu cavo.
Bendito o suor que verto
E mais a terra que eu lavro!

Lanço à terra a sementeira,
Lanço cantigas pró ar;
Cai o trigo sobre a terra
E a terra põe-se a rezar!

Nasce a seara, e depois
Sorri-se o meu coração;
Pelo ar andam cantigas
E a terra desfaz-se em pão!

O campo como verdeja!
E como é linda a verdura!
Se Deus quiser, este ano
Vai ser ano de fartura!

Que cevada! Benza-a Deus!
Oh que lindo milheiral!
Todo o campo está bonito,
Seja courela ou frajal!...

O lavrador da Apariça
É o maior do lugar;
Tem muito dinheiro seu
Mas dá dinheiro a ganhar.

O lavrador dos Barreiros
Tem uma seara de fama.
Vamos ter monda comprida,
Que a terra tem muita grama!

Cuidado com o balanço...
Parece trigo e não é.
Raparigas, não me deixem
De erva ruim nem um pé!

Já temos o trigo seco;
Não há água na ribeira.
Vai preparando o celeiro,
Que a cevada está na eira.

Ceifa bem e não me deixes
Muitas espigas para trás;
Uma espiga, outra espiga,
Quantas espigas não faz?!

Também é precisa a palha,
Faz-me baixo esse restolho.
Eu bem sei que tens namoro,
P´ra que me piscas o olho?

Já lá bateu o meio-dia;
O sol aquece, até cresta!
Lavrador, veja o relógio
Que já são horas da sesta.

O lavrador é bem rico,
Já comprou outra fazenda.
Ao menos dê-nos agora
Meia hora prá merenda.

Olha o Manuel do Curral
Que linda moreia tem!
Daqui a pouco está rico...
Trabalha, faz muito bem!

Lá pró ano que há-de vir,
Se eu tiver vida e saúde,
Hei-de recolher um moio;
Assim o Senhor me ajude!

Olha o trigo como roda
Por cima do calcadoiro!
Que bagos tão amarelos!
Té parece que são de oiro

Olha que já faz maré...
Vê o vento como ralha!
Mãos à pá e à forquilha;
Separa o trigo da palha.

Pelo moitão... fundiu bem;
Podes trazer o joeiro.
Daqui a pouco já temos
Todo o trigo no celeiro.

Traz-me o alqueire, ó rapaz;
Vê lá se sabes medir...
Não derrames; ninguém sabe
O tempo que está p´ra vir!
***************
Manuel Caetano de Sousa
(Quem Canta...., Faro, 1923)
Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia