quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Antologia da Poesia Alentejana (2): Francisco Bugalho

Francisco Bugalho nasceu em 1905 e morreu em 1949, no mesmo ano em que Carlos Queiroz, poeta com quem Bugalho partilha “a mesma discrição verbal, o mesmo gosto da elegância e da doçura”, nas palavras de Adolfo Casais-Monteiro.
Mas se os versos de Queiroz são Lisboa, os de Bugalho são o Alentejo. O Alentejo das figueira verdes e dos “choupos curvados”, sim, mas também do “bom silêncio dormente” ou da “sesta dormida/ aos poucos”.
O seu “abastado bucolismo”, como se lhe referiu Jorge de Sena, convive com as insatisfações de um ser que chegou a dilacerar-se por que o homem que vive, e bem, “que ama o conforto”, é o mesmo poeta que sofre: “Quase não sinto calor / Do meu corpo; em redor / Nem um só eco de Vida”.
Na sua poesia passam as coisas da natureza, o que se move e o que está parado, insectos, algas, noites de solidão, amor, especiarias, “um cavalo branco”, ovelhas e carros lentos. Também “ondas revoltas do mar / com cadáveres de naufrágios a boiar / de bruços, olhos mergulhados / e perdidos / na busca dos abismos desejados / e nunca conseguidos”. E “o meu amigo dia”. E “A Esperança de Dias Novos”.
Este é então um poeta, que resumiu José Régio, de “rara subtileza dos sentidos para as coisas da paisagem, para a passagem, na paisagem, dos animais e dos homens”. Ao que se sabe, está para breve a edição da obra completa de Francisco Bugalho. Amando a vida simples como ele a amava, sincero e humano, desempoeirado e prático, Francisco Bugalho, em cada poesia que compunha, depositava um pouco desse sal de irrealidade que é o tempero de toda a verdadeira sensibilidade do poeta.
João Gaspar Simões – 2/3/49
“Na poesia do segundo quartel do nosso século, a voz de Francisco Bugalho foi, sem dúvida, das mais pessoais, das mais discretas e das mais marcadas pelo selo de uma profunda autenticidade.”
- David Mourão-Ferreira – 1969
in "Viva Voz" - nº 146 - Dez. 1996
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ALGUNS POEMAS DE FRANCISCO BUGALHO

Montado Velho
Meu triste montado velho
Que paz tem quem te procura
E, em ti, vem achar o espelho
De uma vida sem doçura,
Mas livre de enganos vãos!…

Troncos rugosos, mas sãos,
Ásperos, sim, mas generosos,
Todos, na desgraça, irmãos,
Dos maus Invernos ventosos

Montado, além, mais pra além,
Há céus azuis e há searas.
E brandas águas que têm
O brilho de pedras raras,
E não há só solidão!…

Mas essa tua canção
- solução d’alma que anseia –
Também a meu coração,
Furtivamente se enleia.
E aqui me fico contigo.

Sem ternura, nem doçura;
Mas longe do mundo vão,
- Meu velho montado amigo!…
E dos verões, sem pinga d’água.

Montado, que estranha mágua
Te confrange e te redime!
A tua visão afago-a.
És bom cenário pra um crime…
E pra milagres também.
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O Comboio Passa
O comboio passa...
Todas as manhãs acorda a paisagem,
Faz fugir o gado.
E na casa branca, junto da passagem,
Faz erguer a moça, de olhar estremunhado.

Tem geada o campo,
Num manto brilhante.
As vacas reparam, com olhos de gente.
E uns senhores, lá dentro, com ar indiferente,
Pensam noutras vidas, num mundo distante...

Vêm de longes terras, que a moça, coitada,
Nem sonha que existem, estendendo a bandeira.
E a máquina bruta, estridente, apressada,
Engolfa-se, aos gritos, por entre a barreira,
Onde uma calhandra, de há muito, faz ninho.

Ai de quem encontre, naquele caminho!...
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Tosquia
Rente, rente, rente
A tesoura corta.
E, na tarde quente,
Junho está à porta.

Vem do campo, em volta,
Mágico fulgor
De aroma, que solta
O feno, inda em flor.

Aperna-se o gado,
P'ra tirar-lhe a lã.
Ficou encerrado
Desde esta manhã.

Rente, rente, rente
Que a tesoura corta,
E, na tarde quente,
Junho está à porta.

Um halo de neve,
Espuma ou algodão,
Envolve de leve
As reses no chão.

Na luz forte, em roda,
Zumbem as abelhas.
E há balidos soltos
E tristes de ovelhas.

E ao soltar aquelas,
Livres, já, dos velos,
Parecem gazelas,
Em saltos singelos.

Rente, rente, rente
A tesoura corta,
E, na tarde quente,

Junho está à porta.