terça-feira, 21 de março de 2017

ANTOLOGIA DE POESIA ALENTEJANA (2)

Serpa do Vento Suão
Os rostos que passam, cansados, nas ruas
Enrugados pela seca e pelo tempo que escorre devagar
São rostos sem tempo, à margem do tempo
Que condena a margem esquerda, que esmaga sem parar.

Para além do Odiana e antes da fronteira
Desperta a tua alvura que invade o meu olhar.
A tua solidão é esventrada dodesterro
É cântico da terra que greta pelo vento
Suor de um povo em terra a naufragar.

O contraste esbate-se na tua vida quieta
Que esconde a história longa de sonhos deserdados
Traços gravados nas alvas casas térreas
No perfil seguro das casas senhoriais
Nas soberbas oliveiras carcomidas pelo tempo
Na sóbria compostura de teus amuralhados.

Cercam-te as securas dos longos estios
Soprados no suave serpentear das searas
Pelos cálidos ventos Suão.
Choram de saudade as pedras das calçadas
Dos cascos dos muares, agora quase ausentes
Do seu matraquear lento e compassado
Arrastando as horas nas tardes de Verão.

Vestes negras, rostos cansados
A terra seca, quase desolada
Os passos não se atropelam
É lenta, é insegura, quase sem esperança
A caminhada.

Na fronteira dos esquecimento e da memória
Para além do Odiana, àquem de Andaluzia
Os ventos queimam terra, são o fogo
Não sopram donde sopra a maresia.
JAO